Não, o tema não é sobre a dramática
situação financeira da Grécia, nem da cegueira, revolta e inconsciência
(estranha mistura) do seu actual governo (o qual se fosse britânico poderia dar-se
ao luxo daquilo tudo; estranho e injusto mundo em que vivemos). O tema é sobre a política e sobre a técnica
que deveria sustentar as suas decisões.
Neste pobre país anda tudo ao
contrário e, em época eleitoral, a incompetência e o “lufa lufa” de decisões
cruciais de última hora imperam. É, nomeadamente, o caso da TAP e das Águas de
Portugal. A avalanche liberalista vai
vencer (e vender) daquele modo.
As decisões são tomadas e, quase
sempre, recordadas como pesadas heranças que caíram no regaço de iluminados
salvadores da pátria.
“Eles” não souberam resolver o problema, “Nós” sabemos e
muito rapidamente.
É caso para lembrar o rei D. Dinis, não descobriu um regaço
de dávidas para os pobres porque encoberto por um “manto protector” de rosas.
Por cá e nos nossos tempos, o “manto protector” serve para esconder
incompetências (no futebol) e má
política (na política que cada vez mais se confunde nas práticas do
“desporto-rei”: corrupção, fanatismo, amadorismo, incompetência).
Está tudo às avessas e o Zé Povinho
vai caír na cantiga do barítono e do rapazolas das feiras e esquecer as promessas
eleitorais feitas por estes no passado, vergonhosamente violadas e não
cumpridas. Vai voltar a votar numa cambada de fedelhos inchados de importância.
O problema no voto deste ano é não
haver alternativa para um europeísta que queira uma união entre nações
soberanas. Os britânicos não têm este problema, irão fazer um referendo (coisa
que os políticos de cá se apressaram a rejeitar) e se quizerem ficar na União
Europeia será certamente com uma condição: quem manda no país deles serão eles.
Por cá, está tudo às avessas e quem
manda, manda ao serviço de outros lá de fora (e cá de dentro também).

Política, do grego “politikos”, sinifica literalmente “relativo
a cidadãos”. No entanto, pode dizer-se que é a arte de influenciar outros e,
também, na prática, a arte de governar,
isto é, de organizar a actividade de uma comunidade. No seu âmbito, destacaram-se no
passado pela sua relevância a
negociação, a feitura de leis,e a guerra (termo cuja origem em português está
no vocábulo germânico “werra”; as invasões germânicas do nosso território
deixaram uma marca nos vocábulos de hoje, cerca de 5% passados mais de 1.500
anos).
Quer para uma eficaz negociação quer para uma boa legislação, é
necessário uma completa e, tanto quanto possível, correcta avaliação da situação que lhes
corresponde, ou seja, é necessário o recurso à técnica, do grego “techne” (também considerada uma arte
pelos filósofos gregos), a qual, por um conjunto de procedimentos próprios,
retrata em todas as suas componentes uma determinada situação, seja ela económica,
financeira, retórica, musical ou militar.
A “techne” , como arte que é, tem que estar, compreensivelmente, antes
da “politikos”, a arte de governar.
O que se observa hoje em dia
é precisamente o contrário: toma-se uma decisão política e, depois, recorre-se
à técnica para a fundamentar ou para a explicar ao cidadão, em particular em
período eleitoral. Os resultados são próprios de um episódio de “Alice no País
das Maravilhas” e mereceriam um “corte-se-lhe
o pescoço!”.
Exemplos? Há tantos neste pobre país entregue à incompetência,
mas o “Plano de Estabilidade e Crescimento” da coligação eleitoral de direita
criado por políticos e o “Cenário Macroeconómico” elaborado por economistas
para “credibilizar as principais medidas do programa eleitoral” do partido
socialista são paradigmáticos.

Primeiro, os políticos, com a
sabedoria que a Providência lhes deu,
definem o que é bom para a comunidade e, depois, encomendam a um
conjunto de técnicos “independentes” a necessária justificação e explicação.
Todas as decisões de um governo são
políticas mas devem ser, manda o bom senso e a credibilidade, justificadas e
explicadas com o apoio da técnica. Desgosta-me a interesseira subordinação da técnica à política.
Tem que haver uma separação,
nomeadamente ética, entre elas, reconhecendo-se, como é evidente, que não há uma
opinião (“a” opinião) mas que há várias e que nada impede que se dividam e que
se reúnam debaixo de várias bandeiras (dos coelhinhos ou dos porquinhos).
A metologia de governo deveria
sempre ser, a bem da transparência e do bem público, anunciar ou tomar uma
decisão política após uma cuidadosa e criteriosa análise tècnica e não decidir
à sua revelia, “sobre o joelho” ou com preconceitos ideológicos ou com interesses
escondidos.
Há uma meia dúzia de anos aconteceu
coisa extraordinária: a manipulação de estudos técnicos para fundamentar uma
decisão sobre a localização do NAL (Novo Aeroporto de Lisboa). A escolha da Ota
era uma decisão política, local aberrante para um aeroporto moderno. Só
política? Não. Havia interesses dum lado e doutro. Um movimento cívico obrigou,
pela evidência que a técnica revelou, a alterar a decisão política e, assim, amanhã,
quando houver uma necessidade imperiosa de construção de um novo aeroporto (a
Portela segundo informações decorrentes da sua realidade está perto da saturação)
e se as finanças públicas o permitirem, a localização de Alcochete estará em
cima da mesa e a da Ota fora dela, graças à “techne”.