quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A intelectualidade no vocabulário de hoje


           
Nos EUA decidiu-se há anos eliminar formalmente o racismo por via gramatical. Apenas formalmente.
De facto, é minha convicção que, no mais fundo do mais aberto espírito norte-americano, haverá sempre, na sua maioria, o “superior” white anglo-saxon versus os outros: os latinos e os negros. Apenas por conveniência política e hipocrisia social o negro passou a ser designado por afroamericano. Não são difíceis de encontrar provas disto nos filmes e na imprensa do lado de lá do Atlântico e não se deve tomar a nuvem do Tea Party por Juno.
Por cá, nasceu uma nova semântica que nos avassala todos os dias. 
Julgo que uma  ânsia de demarcação do passado levou a democracia a introduzir uma “revolução  vocabulária” inútil e que por vezes raia a imbecilidade. Revolução essa que se quer política, ou socialmente correcta por conceder ao vocábulo transformado uma aura de superioridade, ou pretender ser intelectualmente brilhante pela utilização de expressões rebuscadas, ou não compreensíveis pelo vulgo.
Como exemplo flagrante do primeiro caso, já não existem para os trabalhos de uma casa ou de uma empresa “criadas” ou “mulheres-a-dias” ou nem mesmo “auxiliares de limpeza”, mas sim “empregadas” ou “assistentes técnicas”, os “contínuos” passaram a ser designados  nos estabelecimentos de ensino por “auxiliares de educação educativa” e nos escritórios as “secretárias” foram promovidas a “assistentes”. Os drogados transformaram-se em "toxicodependentes".
Como vocábulos próprios da intelectualidade, tem-se, por exemplo, a palavra abortar, hoje repudiada como tal (parir antes do tempo da gestação) passando o assunto a ser discutido como "interrupção voluntária da gravidez". Os gangues vandalizadores e, não raras vezes mortíferos, são bondosamente apelidados "grupos de jovens desenraizados, não integrados”. 
O “analfabetismo” desapareceu cedendo o passo à "iliteracia" (de facto são termos que designam realidades diferentes, mas não foi essa a razão da substituição). 
Uma raínha do pimba chorosa deveria alterar a letra da sua cantilena de “sou mãe solteira” para “sou de família monoparental” ou coisa do género. 
As crianças que serão para nossa desgraça os “homens de amanhã” são insuportáveis e incomodam pelos seus gritos, atitudes e exigências os que as rodeiam, mas não são “mal-educadas”, têm simplesmente um "comportamento disfuncional hiperactivo” e em vez de um par de estalos são apaparicadas pelos pais com a condescendência carinhosa de alguns adultos. 
Para sossego e satisfação da maioria de "encarregados de educação", foi eliminado do vocabulário escolar a palavra “cábula”, o qual, no limite não é mais do que um adjectivo significando "aluno de desenvolvimento instável", o qual, longe de merecer crítica ou castigo (nunca!), é alvo de condescendente compreensão e apoio por parte dos pais que, criticam frequentemente de mão na anca os professores quando não chegam ao ponto de os ameaçar ou de bater-lhes.
Ainda há cegos, infelizmente. Mas como a palavra foi considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado "invisual" (o termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos, mas é o "socialmente correcto").
A intelectualidade da nossa praça, para se dar ares, desboca-se em "implementações", "posturas pró-activas", "políticas fracturantes", “sinergias”, “valências”, “análises contextuais” e outras barbaridades.
Assim linguarejamos o português, vagueando entre uma “correcção social ou política” e um novo---riquismo linguístico. 
Hoje, o vocábulo desempenha o papel da farda dos tempos muito antigos: dá a importância que falta a quem o utiliza.
A despropósito, o que dizer da “obra” de escultura que se encontra no alto do parque Eduardo VII em Lisboa? “Pirilau” (não vou mais além entrando no domínio da crueza) ou “homenagem à virilidade” dos capitães?
Fico-me por aqui com esta belíssima escultura de homenagem ao 25 de Abril. 


Ainda hoje, passados quase 40 anos, não percebo porque é que foi destruído um simples pedestal sem qualquer estilo (sobre o qual deveria estar a estátua de D. Nuno Álvares Pereira, actualmente em frente ao mosteiro da Batalha) e foram mantidas duas colunas com coroas fascizantes. 
Facilidade versus dificuldade? Diletantismo intelectual versus arte?

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Se...

Tradução livre de uma versão em língua francesa do poema " If " de Kippling (que me deram quando muito novo e que em mim sempre esteve presente). O texto original é muito diferente e transcreve-se no fim.
Se consegues ver a obra da tua vida destruída
E, sem dizeres uma única palavra, voltares a reconstruí-la,
Se consegues perder, de uma só vez, o lucro de cem coisas
Sem um gesto e sem um suspiro;
Se consegues ser amante sem ser louco de amor,
Se consegues ser forte sem deixar de ser terno
E, no entanto, sentindo-te odiado não odiares
Mas lutares e defenderes-te;
Se consegues aguentar ouvir as tuas palavras
Adulteradas por gentalha para engano de idiotas,
E de ouvir das suas desvairadas bocas mentiras sobre ti
Sem tu próprio mentires com uma única palavra tua;
Se continuas digno sendo popular,
Se consegues ser humilde sendo conselheiro de reis,
Se consegues amar os teus amigos como irmãos
Sem que nenhum deles seja tudo para ti;
Se sabes pensar, observar e conhecer,
Sem nunca seres céptico ou destruidor;
Sonhar mas sem deixar que o sonho seja o teu dono,
E meditares sem que os pensamentos sejam o teu propósito,
Se consegues ser duro sem nunca teres raiva;
Se consegues ser corajoso sem seres imprudente,
Se sabes ser bom, se sabes ser sábio,
Sem seres moralista ou pedante;
Se consegues encontrar o Triunfo depois da Derrota
E enfrentares do mesmo modo esses dois impostores,
Se consegues manter a coragem
Quando todos a perderam;
Então, os Reis, os Deuses, a Sorte, a Vitória,
Serão, para sempre, os teus submissos escravos,
E, o que é bem mais valioso do que reis e glória,
        Serás um homem, meu filho.            
(tradução livre do francês, LLP).



"IF" de  R. G. Kippling 
If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too:
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or being hated don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream---and not make dreams your master;
If you can think---and not make thoughts your aim,
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same:.
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build'em up with worn-out tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings,
And never breathe a word about your loss:
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings---nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much:
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And---which is more---you'll be a Man, my son!