segunda-feira, 3 de abril de 2017

O lixo televisivo.


No péssimo panorama televisivo nacional há uma honrosíssima excepção, com a espada do encerramento sempre suspensa por faltas de dinheiro, poupanças, "racionalidades", imbecilidades e etc. Trata-se da RTP 2.
Os outros canais são maus e quase iguaizinhos, nomeadamente nas telenovelas (de muito fraca qualidade dentro dos padrões internacionais) e no futebol (uma cansativa obsessão) que constituem, infelizmente, o núcleo da programação.
Nestas miseráveis circunstâncias, qualquer pódio é irrelevante assim como ridiculamente irrelevantes são as apregoadas quotas de audiência. É bom de ver que nesta luta entre maus e bons sendo todos maus com excepção de um este fica sempre numa posição de difícil concorrência numa sociedade com as fragilidades culturais como é a nossa.  
Com o seu enorme poder a televisão deveria ser um instrumento de instrução, de cultura e de são entretenimento, mas não: é orientada para a conquista de mercados publicitários. Estes, por sua vez, pretendem atingir a maior população possível e esta é, infelizmente e na sua esmagadora maioria, deseducada e pobremente instruída. Fica, assim, à mercê de direcções de informação pouco competentes, que não sabem enquadrar devidamente o noticiário internacional praticamente inexistente e, também, de jornalistas que, na sua maioria mas com honrosas excepções, lêem ou escrevem mal e papagueiam.
A este propósito transcrevo, pela sua qualidade e actualidade, um artigo de António Barreto. Aqui vai ele, com a devida vénia: 
"É simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão é pena capital. A banalidade reina. O lugar-comum impera. A linguagem é automática. A preguiça é virtude. O tosco é arte. A brutalidade passa por emoção. A vulgaridade é sinal de verdade. A boçalidade é prova do que é genuíno. A submissão ao poder e aos partidos é democracia. A falta de cultura e de inteligência é isenção profissional.

Os serviços de notícias de uma hora ou hora e meia, às vezes duas, quase únicos no mundo, são assim porque não se pode gastar dinheiro, não se quer ou não sabe trabalhar na redacção, porque não há quem estude nem quem pense. Os alinhamentos são idênticos de canal para canal. Quem marca a agenda dos noticiários são os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. Quem estabelece os horários são as conferências de imprensa, as inaugurações, as visitas de ministros e os jogadores de futebol.
Os directos excitantes, sem matéria de excitação, são a jóia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um directo. Figurão no aeroporto, comboio atrasado, treinador de futebol maldisposto, incêndio numa floresta, assassinato de criança e acidente com camião: sai um directo, com jornalista aprendiz a falar como se estivesse no meio da guerra civil, a fim de dar emoção e fazer humano.
Jornalistas em directo gaguejam palavreado sobre qualquer assunto: importante e humano é o directo, não editado, não pensado, não trabalhado, inculto, mal dito, mal soletrado, mal organizado, inútil, vago e vazio, mas sempre dito de um só fôlego para dar emoção! Repetem-se quilómetros de filme e horas de conversa tosca sobre incêndios de florestas e futebol. É o reino da preguiça e da estupidez.
É absoluto o desprezo por tudo quanto é estrangeiro, a não ser que haja muitos mortos e algum terrorismo pelo caminho. As questões políticas internacionais quase não existem ou são despejadas no fim. Outras, incluindo científicas e artísticas, são esquecidas. Quase não há comentadores isentos, ou especialistas competentes, mas há partidários fixos e políticos no activo, autarcas, deputados, o que for, incluindo políticos na reserva, políticos na espera e candidatos a qualquer coisa! Cultura? Será o ministro da dita. Ciência? Vai ser o secretário de Estado respectivo. Arte? Um director-geral chega.
Repetem-se as cenas pungentes, com lágrima de mãe, choro de criança, esgares de pai e tremores de voz de toda a gente. Não há respeito pela privacidade. Não há decoro nem pudor. Tudo em nome da informação em directo. Tudo supostamente por uma informação humanizada, quando o que se faz é puramente selvagem e predador. Assassinatos de familiares, raptos de crianças e mulheres, infanticídios, uxoricídios e outros homicídios ocupam horas de serviços.
A falta de critério profissional, inteligente e culto é proverbial. Qualquer tema importante, assunto de relevo ou notícia interessante pode ser interrompido por um treinador que fala, um jogador que chega, um futebolista que rosna ou um adepto que divaga.
Procuram-se presidentes e ministros nos corredores dos palácios, à entrada de tascas, à saída de reuniões e à porta de inaugurações. Dá-se a palavra passivamente a tudo quanto parece ter poder, ministro de preferência, responsável partidário a seguir. Os partidos fazem as notícias, quase as lêem e comentam-nas. Um pequeno partido de menos de 10% comanda canais e serviços de notícias.
A concepção do pluralismo é de uma total indigência: se uma notícia for comentada por cinco ou seis representantes dos partidos, há pluralismo! O mesmo pode repetir-se três ou quatro vezes no mesmo serviço de notícias! É o pluralismo dos papagaios no seu melhor!
Uma consolação: nisto, governos e partidos parecem-se uns com os outros. Como os canais de televisão."

                                      Vassoura precisa-se!


 

sábado, 25 de março de 2017

O Norte, o Sul, o álcool e as mulheres



Por cá, quando o homem abriu a boca e disse a besteira todos lhe caíram em cima, dos jornalistas aos políticos. Tudo porque a criatura, de seu nome Jeroen Dijsselbloem, acusou os europeus do Sul de gastarem o seu dinheiro "em copos e mulheres" e "depois pedirem que os ajudem".
Mais correctamente: “Na crise do euro os países do Norte mostraram solidariedade para com os países do Sul. Como social-democrata, a solidariedade é para mim extremamente importante. Mas quem a pede, tem também deveres. Não posso gastar o meu dinheiro todo em bebida e mulheres e depois disso ir pedir a vossa ajuda. Este princípio vale para o nível pessoal, local, nacional e também europeu”.
Não entendo o porquê destes súbitos ataques. Não porque não sejam justificados mas por serem um "só agora". Já não é a primeira vez que a criatura é assunto de notícia.
Já em 2013 teve que corrigir a sua biografia oficial apagando a referência a um falso mestrado no University College de Cork, o qual nem sequer existia, do que, aliás, na altura dei conta num "post" intitulado "Um mestre da finança europeia". Afinal, confessou ele, tudo não tinha passado de uma mera pesquisa em negócios alimentares...
O CV do presidente do Eurogrupo tinha aparentemente sofrido de uma sessão de copos. Há outra explicação? Há: o homem sofre de uma típica presunção imbecil e aldrabona.
O Norte poderia ser exemplo de austeridade não só na economia, especialidade paralela da do Jeroen, mas, sobretudo na bebida e no sexo. Afinal, é o berço da reforma. Nada disso.
Convivi profissionalmente com alemães, holandeses, dinamarqueses, suecos, mas de austeridade vi pouco. Na Holanda assisti estupefacto às vitrines de prostituição ao vivo coloridas de vermelho, em bairro específico e para tal construído (o bairro vermelho de De Wallen). 
Ainda hoje existe e a sua actividade representa uns míseros 2,5 mil milhões de euros na economia do país da delicada tulipa que é o Dijsselbloem.
Nele, para além de um museu do erotismo, de espectáculos daquela índole e de uma insólita loja do preservativo (Comdomerie), há "coffee shops" de droga e o museu do canábis. O consumo da droga é superior ao do queijo e está ao nível do do pão (da Reuters) que o pobre português costumava comer com uma sardinha à laia de almoço.
Em Copenhagen e em Estocolmo, capitais do Norte evoluído, com profissionais de "mão cheia", a que Portugal absolutamente nada devia no meu tempo, acabado o dia e muito principalmente a semana, as bebedeiras eram colectivas e monumentais, como nunca se assistiu no Sul.
Vi eu, eles e elas de garrafa nas mãos aos bordos no meio da rua. Que era do clima e da luz. Talvez, concedo que o frio e uma quase noite permanente sejam desculpas.
Quanto a mulheres, as do Norte são, a meu ver, lindas e não só. Do Norte veio o amor livre. Livre? Libérrimo! Que o digam os homens do Sul onde não há "bairros vermelhos".
O Sul? É apenas o berço, não da reforma mas da civilização. Há mais de 1.600 anos invadido pelos bárbaros do Norte com cornos à laia de capacete e de copo. Para além desta ninharia, pouco há a dizer do maravilhoso, quente e luminoso Sul.
Os Dijsselbloem desta Europa?