terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A matemática, as outras e os doutores


Repare-se nestas “maravilhas”:


3 x 37 = 111
 6 x 37 = 222
 
9 x 37 = 333
12 x 37 = 444
15 x 37 = 555
18 x 37 = 666
21 x 37 = 777
24 x 37 = 888
27 x 37 = 999

111.111.111 x 111.111.111 = 12.345.678.987.654.321

1 x 9 + 2 = 11
12 x 9 + 3 = 111
123 x 9 + 4 = 1111
1234 x 9 + 5 = 11111
12345 x 9 + 6 = 111111
123456 x 9 + 7 = 1111111
1234567 x 9 + 8 = 11111111
12345678 x 9 + 9 = 111111111

1 x 8 + 1 = 9
12 x 8 + 2 = 98
123 x 8 + 3 = 987
1234 x 8 + 4 = 9876
12345 x 8 + 5 = 98765
123456 x 8 + 6 = 987654
1234567 x 8 + 7 = 9876543
12345678 x 8 + 8 = 98765432
123456789 x 8 + 9 = 987654321




9 x 9 + 7 = 88
98 x 9 + 6 = 888
987 x 9 + 5 = 8888
9876 x 9 + 4 = 88888
98765 x 9 + 3 = 888888
987654 x 9 + 2 = 8888888
9876543 x 9 + 1 = 88888888
98765432 x 9 + 0 = 888888888
987654321 x 9 - 1 = 8888888888
9876543210 x 9 - 2 = 88888888888


 Sim, “maravilhas” mas não é certamente por elas que a Matemática (juntamente com a língua portuguesa) deva ser considerada pelo Ministério da Educação Nacional como a prioridade entre as prioridades do ensino. A ignorância não reside apenas nelas.
Hoje em dia, os nossos jovens nem sabem a tabuada (“prova dos nove”, o que é isso?) mas têm máquinas de calcular e computadores. Os “magalhães” são o produto desta cegueira de que sofre o entendimento do ensino da matemática. Os alunos olham para os resultados que esses sofisticados instrumentos (deuses dos resultados) lhes dão com um respeito e uma confiança próprios, de facto, de quem nada sabe. Esquecem-se que sses instrumentos não passam de meras ferramentas, como o lápis, o garfo e a faca, o pente, a escova de dentes, etc.
Se qualquer maquineta lhes comunicar que o seu peso é de 6550, 00 kg (seis mil...), eles aceitam confiantemente com uma total ausência de espírito crítico ou de noção da palpável realidade.
E a História de Portugal, tem menos importância? A história (desculpem-me: “estória”, salvo erro é assim “em bom português…) deles, dos pais, dos avós, do seu país é menos importante de que saber (?) “teclar” sete vezes nove e obter 63 (se o dedo não escorregar)? Saber quem eram os nossos reis, conhecer as suas dinastias e não confundir a revolução do 25 de Abril com a de 1383, não será muito importante? Ou é indiferente a confusão entre Nuno Álvares Pereira (Nuno quê?...) e um rei do século XVIII?
E a Geografia? Ou querem ser como os americanos, povo de mestres indiscutíveis na mais avançada investigação mas que não têm a mais pequena ideia onde é a Pérsia, a Argélia, qualquer país da Europa, da África ou da Ásia? Claro que ter de saber as serras de todos os sistemas montanhosos, os afluentes de todos os rios e as estações de todas as linhas de caminho de ferro de Portugarl era, no tempo da "obscurantismo", um exagero, mas desconhecer a localização da Serra dos Candeeiros, que o Zêzere é um afluente do Tejo e que para além do combóio Lisboa-Porto há (havia) muitos mais outros, para sul e para oeste, isto também não.
E as Ciências Naturais não interessam? Saberão a diferença entre um peixe e uma baleia, entre o humano e um ruminante (diferença tão necessária de ser descortinada hoje em dia)?
E a Física? E a Química? São todas matérias de segunda classe, como o são os cidadãos contribuintes de hoje, à semelhança (imagine-se a ironia) como, no passado, eram identificados os naturais das províncias ultramarinas.
O ensino em Portugal? Uma medíocre tristeza, desde a maioria das escolas secundárias até algumas “universidades” que proliferam como cogumelos, cheias de crânios a leccionar o que muitas vezes não sabem ou sabem muito pouco ou que nem sequer praticam (“quem sabe faz, quem não sabe ensina”…) e que, com a maior naturalidade, passam diplomas de licenciatura aos que não sabem nem um décimo do que sabe um honesto trabalhador não qualificado e com “apenas” a antiga 4ª classe.
É uma preocupante realidade ignorada pelos que proclamam a todos os ventos que Portugal necessita para o seu crescimento económico do aumento da sua produtividade e de assegurar adequadas qualificações profissionais. Ignoram-na ou fazem de conta que não a vêem.
Se a instrução de um povo está relacionada com o seu grau de literacia (e neste domínio os progressos feitos nos últimos 35 anos são inegáveis), a cultura e a qualificação técnica dos seus cidadãos não é medida, como muitos pretendem, pelo número de licenciaturas ou por uma maior facilidade de acesso a universidades. Mas os governantes gostam de sublinhar o número de licenciados, mestres e doutores como medida de progresso, de aproximação com os padrões europeus. Licenciados mas como, com que grau de conhecimentos, por que tipo de academias? Licenciados por “cunha”, com conhecimentos inferiores aos de um simples bacherelato, por escolas não acreditadas.Tudo mestres e doutores. Assim é que é.
Tal como ser-se apenas professor de uma escola primária ou secundária (profissão difícil, digna e apreciada no passado) é socialmente pouco hoje em dia, amanhã ser-se “apenas” licenciado universitário não será suficiente. Somos um país de mestres, doutores e professores. E, depois, há para além deles e espalhados pelas “verduras” uma quantidade de “misters” e de “professores”.. 
Ora batatas

" (...) Cerca de 500 mil portugueses não sabem ler nem escrever, segundo os resultados definitivos do Censos 2011, hoje apresentados. A taxa de analfabetismo caiu de 9% para 5,2% na última década, uma diminuição acentuada, que ainda assim não é suficiente para tirar Portugal do último lugar da tabela a nível europeu.
Realizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), os resultados do Censos 2011 refletem o progresso registado ao nível das qualificações. Em apenas dez anos, o número de portugueses com mais de 23 anos com ensino superior quase duplicou (passou de 9% para 15%). Entre os licenciados, 60% são mulheres.
Metade da população com 15 ou mais anos concluiu, pelo menos, o 9º ano de escolaridade, o que representa um aumento de 12 pontos percentuais em relação a 2001. Lisboa e Algarve apresentam os maiores níveis de qualificação da população, com 60,4% e 52,7%, respetivamente (...).
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/meio-milhao-de-portugueses-sao-analfabetos=f768287#ixzz2CrAVqQtC

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Filhos de piteu


                      “ Não compreendo para que é preciso caluniar. Se se quer prejudicar alguém,
                       a única coisa a fazer é dizer alguma verdade acerca da pessoa“ .
                                                                                                                                                F. Nietzche    
                                                                                    
A vida é como é, mas, frequentemente, não é como os princípios da Ética recomendariam. Se a Ética poderá ser, eventualmente, menos importante nalguns domínios da vida, não o é noutros.
Refiro-me à profissão.
Por exemplo, ser-se médico, engenheiro, advogado ou funcionário público exige uma escrupulosa obediência à Ética. Não referi a política porque entendo que não é ou não deveria ser uma profissão, mas nela a observância dos mais elementares princípios da Ética, que resultam de carácter e de educação, são essenciais para a defesa do interesse público, o que, em geral, não se observa nos dias de hoje.
Um bom profissional sem ética é (como a ignorância) mais perigoso para a sociedade do que um malfeitor portador de uma metralhadora. 
No entanto, não o ignoremos, há profissionais que são eticamente sólidos que nem uma rocha, nos bons e nos maus momentos que na vida atravessam, mas que são, infelizmente, poucos. 
Grande parte deles zarpa da boa conduta, talvez incomodados pelas regras que esta impõe às suas conveniências pessoais, nomeadamente financeiras ou de carreira. Os que tomam aquele barco estão no limiar da conduta criminosa e, quando políticos, além de constituírem uma vergonha nacional, mudam de partido ou neles ficando (quando lhes é permitido) mudam de opinião com ligeireza e admirável à-vontade.
É comportamento que considero próprio das pessoas sem carácter porque há convicções que se devem seguir com a alma e que se devem defender intransigentemente. Na vida deve fazer-se o que é justo e digno e não o que é agradável, a nós ou aos outros. Doa a quem doer.

Lembra-me Sócrates e os seus acusadores e juízes “... muda, não persistas mais nas tuas filosofias ou morrerás…”. Depois, um natural do demo de Piteu (um tal Meleto) apresentou ao arconte-rei uma acusação jurada na qual era pedida a pena de morte, porque Sócrates não acreditava nos deuses em que acreditava a cidade e corrompia com os seus ensinamentos a juventude.

 
          
Há criaturas que não respeitam o caminho da Ética e, porque não acreditam nos deuses desta, espalham a mentira com descaramento, sem qualquer vergonha. 
Esses filhos de piteu de hoje ainda têm ainda a presunção de serem juízes dos actos dos outros e o falar verdade passou a ser, por causa deles, uma perigosa ou temerária audácia, o que nunca, fossem quais fossem as circunstâncias, deveria ser. 
Aquelas criaturas que, infelizmente, abundam em particular na política, são umas autênticas merdas, uns filhos de Piteu do nosso tempo, embora sejam consideradas respeitadas pessoas.
Na política deveria imperar a verdade, a honestidade e a competência. Nunca deveria ser de outro modo e um verdadeiro homem de Estado (incluindo os designados nos “media” por “senadores") nunca deveria fazer “concessões” naquilo que é justo, ainda que tivesse de sofrer o ostracismo ou a morte política.
Mas, nada muda neste regime tão cheio de “adversários” políticos que exprimem “consideração pessoal” e “apreciação intelectual” mútuas, comovendo profundamente quem os houve em mesas redondas e quadradas.
Esses amigos, confrades ou irmãos sabem, no entanto, dizer mal dos “do outro lado” mas apenas no segredo do círculo dos seus “ninhos” (o que, diga-se de passagem, não se compreende uma vez que “para se prejudicar alguém basta apenas dizer algumas verdades“, as quais quanto mais públicas melhor).
Mas deste modo estão bem na vida, graças a Deus e aos cidadãos, reafirmando, com desenvoltura e desplante, os seus direitos e os deveres dos outros, e os valores da seriedade e do altruísmo.
Escutando-os sofre-se uma estranha sensação que é mistura de ofensa, revolta e, por vezes, de resignação.

Atenção, andam por aí muitos filhos de piteu.